quinta-feira, 4 de julho de 2013

Artigo - O grito dos incluídos



*Por Anderson Defon

Não há situação mais cômoda que a de um crítico. Como mero espectador, submete a julgamento a ação alheia. E sem envolvimento ou responsabilidade alguma para com o objeto julgado, fica o mesmo livre para fartar sua vaidade com comentários sarcásticos e devastadores. 

E é assim, que há muito se comporta a classe média brasileira. Os noticiários políticos lhes passam despercebidos durante todo o tempo (a não ser em período eleitoral, quando acompanham somente as pesquisas para saber se seu candidato, que escolheram com os mesmos critérios que escolhem um time de futebol, está liderando), rejeitam veementemente qualquer envolvimento em causas coletivas, dizem sempre “não gostar de política” e fazem dessa máxima um escudo para se isolarem no conforto que a não dependência dos serviços públicos lhes gera. Renegam a participação intrínseca aos que vivem em um estado democrático.

Então, que postura esperar daquele que se isola em uma redoma? Que seja indiferente e tácito ao que ocorre fora dela, não? Não. Apesar de sua total apatia, há sempre na boca da classe média um chavão ácido sobre qualquer que seja o tema abordado, digno do mais cruel e refinado crítico. Criticam a atividade política que não acompanham, criticam o governo que não fiscalizam, criticam o parlamentar corrupto que, pela mesma falta de critério, elegem. Mas não basta não fazer, tem que repudiar quem faz. Desde a redemocratização do país, os partidos políticos, sindicatos e entidades de classe em geral são alvos de olhares atravessados dos médio-classistas: é a já citada rejeição ao envolvimento em causas coletivas.

Envolvimento político ou qualquer coisa que se assemelhe é pecado capital. Para o bom médio-classista, o político é apenas aquele cidadão que ele xinga toda noite durante o Jornal Nacional, e, é claro, aquele conhecido a quem ele pede favor quando precisa de alguém que tenha “peixada”. Sim, quando funciona em seu benefício, o nome não é corrupção, é jeitinho brasileiro.

O enquadramento generalizado da classe média nesse padrão talvez não seja preciso, mas também não é injusto. É o “senso de posição social” que dá o poder de transferir a responsabilidade: “Ah, a culpa é do povo pobre e ignorante que elege esses políticos safados”.

Mas não há erro de uma geração que outra não possa consertar. Essa nova geração tem mais acesso à informação, mais acesso às universidades, sem dúvida terá mais discernimento e participará de forma mais ativa e racional da democracia do país, não? Não. O monstro deu cria. A nova geração da classe média, incapaz de se situar no contexto democrático, repete a hipocrisia de seus genitores e sai de casa com um conselho parental firmado como um valor imprescindível: “Não se meta com política, é coisa de quem não presta”.

E a cartilha é seguida. A criminalização da política atinge toda a sociedade e como prova disso, segue definhando nos corredores das universidades o movimento estudantil. Outrora protagonista da luta pela democracia, hoje sobrevive graças a jovens que, a despeito das piadas e dos olhares de condenação, ainda “tomam partido”, literalmente. E isso não é uma acusação.

E nesse cenário se iniciaram as manifestações das últimas semanas. Lideradas inicialmente por um grupo de jovens que, de forma organizada, construíram uma pauta de combate às más condições do transporte público e foram às ruas em várias cidades do país. Como é natural em manifestações públicas, alguns se exaltaram e houveram enfrentamentos com a polícia, que foram noticiados pela grande mídia com a parcialidade e o sensacionalismo de sempre. Foi aí que a “bomba estourou”.

Certamente, acompanhar os enfrentamentos com a polícia ficou mais interessante que a novela. E de repente, como num grande viral de redes sociais à la gangnam style, a nova geração da classe média percebeu que protestar era algo que não se fazia há muito tempo (desde 1992 no Fora Collor), ou seja, já podia voltar a ser “tendência da estação”. Pintaram as caras e levaram as ruas toda a revolta e interesse pela coisa pública que sempre lhes faltou. Seria ótimo, se não continuasse lhes faltando algo. Conteúdo.

O conteúdo e a politização lhes faltam justamente pela postura anteriormente citada, mas isso não foi levado em conta. A necessidade de ir às ruas e mostrar que “O gigante acordou” era maior e cada vez mais inflamada pelas redes sociais, tradicionais vitrines dos pseudo-intelectuais e pela grande mídia, que ao ver seu público-alvo aderindo às manifestações, parou de se referir às mesmas como atos de vandalismo. Com todas as condições reunidas, o “gigante” realmente acordou. E como todos aqueles que acordam de um coma profundo, acordou desnorteado, sem saber onde está e o que fazer.

A politização, que seria a solução para apatia de nosso povo para com seu país, foi demonizada. Bandeiras de partidos eram queimadas, tais quais bruxas nas fogueiras da Inquisição. Era a nova classe média levando às ruas a revolta que adquirira no sofá, transformando um legítimo direito democrático, numa salada de cartazes despolitizados que contemplavam gays, cristãos, militares, médicos, esquerdistas, direitistas, todos enfim. E a todo momento surgiam aqueles que tentavam apontar para a mesma direção todos os canhões dispersos em meio á multidão. E conseguiram.

A direita e sua eterna aliada, a grande mídia, não desperdiçariam jamais essa oportunidade de colar nas manifestações um rótulo com a frase: “é tudo culpa do governo”, e é claro que funcionaria, afinal a classe média aprendeu a protestar, não a pensar ainda. Uma coisa de cada vez.

Por fim o que ficou demonstrado foi uma grande capacidade de fazer muito pouco, com muito. Milhares foram às ruas em cada cidade sem saber exatamente o porquê, e assim ganhamos um segundo carnaval. As poucas manifestações remanescentes transformaram-se em festivais de vandalismo e violência. As conquistas dos atos surgiram, mas não correspondem nem a uma pequena fração do volume que tiveram. Medidas efêmeras, pontuais, sem grande representatividade para a profunda reforma do sistema político que se faz necessária.

Lamentável. Desperdiçamos tamanha mobilização num país que precisa tanto de seu povo. Basta lembrarmos que foi também com gente nas ruas, mas de forma politizada e organizada, que conseguimos o direito de escolher nosso presidente.
E a nova geração da classe média, muito em breve assumirá o seu papel hereditário de crítica implacável. Sempre praguejando contra as consequências da própria apatia, mas emudecendo quando lhe é dado o direito de falar. E por emudecerem quando lhes é dado o direito de falar, agora gritam. Mas já estão emudecendo novamente. Gritar talvez já não seja mais a “tendência da estação”.
 
*Anderson Defon, 25 anos, estudante de administração, filiado ao Partido dos Trabalhadores.

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