segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ENTREVISTA com Luciano Barreto: “A construção civil não pode ser atacada de forma genérica”

Luciano: “Estamos torcendo pela aprovação do Proinveste”

Por MAX AUGUSTO

Uma decisão judicial suspendeu a análise do Plano Diretor de Aracaju, que após muitos debates e realização de diversas audiências públicas, estava sendo analisado na Câmara de Vereadores. E sempre que o debate esquenta, alguém levanta a tese de uma suposta influência do empresariado da Construção Civil na votação dos pontos mais polêmicos. Para o empresário Luciano Barreto, da construtora Celi, essas acusações são irresponsáveis, e Sergipe deveria se orgulhar da sua indústria de Construção Civil. Ele disse que os empresários participaram das discussões, através da Ademi, mas destaca que várias propostas de emendas enviadas por eles foram rejeitadas. Luciano também questionou a arquiteta Vera Ferreira, que segundo ele, vive um dilema ético, ao elaborar o Plano Diretor da Barra dos Coqueiros e prestar serviços para construtoras que desenvolvem projetos lá. Ele ainda afirmou que o gabarito (altura) dos prédios não é uma questão tão importante (o espaçamento lateral seria a questão fundamental) e falou sobre a economia do Estado. Leia a seguir a entrevista exclusiva concedida ao JORNAL DA CIDADE / BLOG DO MAX, onde Luciano também declarou apoio ao empréstimo do Proinveste.


JORNAL DA CIDADE – Como o senhor avalia o Plano Diretor?

Luciano Barreto - Esse é um tema que embora interesse à Construção Civil como um todo, foi acompanhado mais de perto pela Ademi e seus técnicos. Acho que o que foi votado até agora na Câmara representa o melhor para os interesses de Aracaju e da própria comunidade. Tenho visto e ouvido muitos dando depoimentos de declarações, todos de boa fé, mas sem o conhecimento dos aspectos que criticam. Muitas vezes são críticas que não se aprofundaram.

JC - Alguns setores, como o movimento Participe.Aju tem criticado o Plano Diretor. Como o senhor vê essas criticas?

LB – O Plano Diretor foi elaborado pela Prefeitura de Aracaju, a sua reformulação teve ampla discussão no Condurb e depois foi para a Câmara, que convocou todas as entidades civis para a apresentarem sugestões e propostas, em várias audiências públicas. Ao longo de um ano o processo foi amplamente discutido. E a Ademi, também, solicitada, apresentou sugestões de emendas à proposta original, sendo que a maior parte delas não foram aprovadas.

JC - Qual é a influência da Ademi e do setor da construção no Plano Diretor?

LB - É uma forma errada de discutir o problema, além de pouco respeitosa com uma atividade tão importante como a construção civil. A indústria da construção civil em Sergipe, congrega mais de cinte empresas genuinamente sergipanas, que nasceram em Sergipe e são comandadas por empreendedores sergipanos, cuja atividade geram investimentos da ordem de R$ 1,5 bilhão por ano, através de bancos públicos e privados. Só pra se ter uma ideia, isso representa quase três ‘Proinvestes’. É a atividade que mais cntribui para o PIB de Sergipe, é a maior geradora de empregos com carteira assinada, e são as empresas que mais investem em responsabilidade social. Só no Instituo Luciano Barreto Júnior, esse ano vamos trabalhar com 1600 jovens. Lembro que por determinação da minha família, consta no estatuto que é proibido receber doações de verbas públicas. Essa atividade possui mais de 40 mil colaboradores não pode ser tratada de forma pejorativa nem com insinuações maldosas. Quando as emendas que enviamos foram rejeitadas, é porque foi bom para Aracaju. Mas quando são aprovadas, chegam as insinuações de influência. Então sob esta forma estreita de pensar a Ademi não apresentaria nenhuma emenda, só seria bom se suas emendas fossem rejeitadas.

JC – O índice de ocupação dos terrenos é um dos pontos mais criticados. O índice que foi aprovado é bom para Aracaju?

LB – O Plano Diretor admite que o índice de ocupação dos terrenos chegue a seis, o que significa dizer que pode-se edificar em cima de um terreno até seis  vezes o seu tamanho. Só que a partir de quatro a empresa tem que adquirir a outorga, pagando o chamado solo criado. E a Prefeitura só vende se quiser. Uma coisa precisa ser discutido, quanto menor a taxa de ocupação, menos unidades poderão ser construídas, e aí vamos ter unidades mais caras, que vão sair odo poder aquisitivo da população. Onde está a preocupação com onde essas pessoas vão morar? Existem estudos que defendem a concentração de habitações na região que já possua infraestrutura. O índice tem que estar limitado aos afastamentos, para não termos prédios colados, isso é importante. Mas além disso, o maior fiscal hoje é o comprador, que exige dos empreendedores maior qualidade. Os erros cometidos no passado não se repetem, hoje a Prefeitura é extremamente exigente, assim com a Adema e Ministério Público.

JC – Algumas pessoas estão atribuindo aos prédios problemas de mobilidade urbana, o senhor concorda?

LB – Isso é a mesma coisa que sugerir que não se fabrique automóveis para que as cidades fiquem vazias. Não é a questão de ocupação de terreno, existem uma série de dificuldades que contribuem para o problema da mobilidade. O Brasil produz hoje três milhões de automóveis por ano, houve um acréscimo grande de veículos automotores nos centros urbanos, sem que a infraestrutura tenha acompanhado essa velocidade. Em Aracaju, por exemplo, as avenidas tem trinta anos. Precisamos também de uma política adequada de transporte coletivo, uma atividade importante que deveria oferecer melhores condições, mas que não conta com nenhum incentivo. O que deve ser feito, é tentar ampliar a área com condições de serem edificadas. Não se pode ficar preso dentro de um círculo vicioso, onde não se constrói porque não existe infraestrutura e não se disponibiliza infraestrutura porque o local não há construções.

JC – O senhor comentou recentemente as críticas que tem sido feitas pela arquiteta Vera Ferreira, que envolvem o desenvolvimento do Plano Diretor da Barra dos Coqueiros.

LB - As críticas que ouvimos são feitas sempre pela arquiteta Vera Ferreira, sempre com insinuações genéricas e sem provas. Se ela tem provas de qualquer coisa, apresente. Mas a posição dela é contraditória, ela acusa as construtoras, mas na Barra ela elaborou o Plano Diretor e presta consultoria aos projetos que estão sendo implantados por lá. Na minha opinião existe um conflito ético. Ela faz colocações,é bem articulada e competente, mas muitas das coisas que ela combate ou critica, se estivesse mais presente no local que ela mesma trabalha, poderia ter evitado. Não sei se a imprensa conhece iniciativa dela lutando contra algum projeto, já que é funcionária da Emurb. Ela mesmo confirmou que passou a maior parte do tempo à disposição de outros setores. Se o papel da Emurb é aprovar projetos e combater coisas clandestinas, ela poderia ao menos ter ido a publico com a mesma força e disposição que ataca as construtoras denunciar esses projetos que hoje ela critica e que fundamenta as criticas dela.

JC - O aumento na quantidade de empresas no setor da construção civil tem gerado empreendimentos de mais qualidade?

LB – Com certeza. Antigamente não existiam opções, hoje existem várias empresas, hoje o consumidor sai de empresa em empresa pesquisado e alguns chegam a pedir assessoria de arquitetos em projetos. É como já disse, o maior fiscal da Construção Civil é comprador. E eu posso falar como quem conhece bem o Brasil, e principalmente o nordeste, a Bahia e o Ceará: Sergipe deveria se orgulhar da indústria de Construção Civil, essa atividade não pode ser atacada de forma genérica.

JC – Outro ponto polêmico no Plano Diretor é a questão da altura dos prédios (gabarito). Qual seria o número ideal para Aracaju?

LB - Gabarito não é tão importante. As maiores cidades disputam qual possui o prédio mais alto. Não podemos viver no atraso, temos é que respeitar os afastamentos naturais com normas mais rigorosas. Essa discussão é muito mais política do que técnica, criando embaraços para a construção. O ideal é obter do térreo o maior índice que seja possível, respeitado os afastamentos laterais.

JC – Como está a economia de Sergipe? Os recursos do Proinveste vão estimular a economia do estado ou isso é conversa mole?

LB – Nós tivemos um ano difícil, apesar de ter sido menos difícil no setor de incorporações. Por isso me preocupo quando se fala em restrições, se começarem a restringir muito, onde os colaboradores das empresas vão trabalhar? O setor de obras públicas está sofrendo muito por falta de investimentos, por isso estamos esperançosos com o Proinveste. Há uma falta de recursos no governo, o Governo Federal tem dado incentivos via redução de impostos, o que tem trazido repercussão negativa para os estados. Por isso a presidente Dilma, entendendo a importância da Construção Civil, criou o Proinveste. Em qualquer economia do mundo o primeiro investimento a ser estimulado, em épocas de crise, é Construção Civil. No mundo todo é assim e no Brasil não poderia ser diferente.

JC – Mas falando em obras públicas, elas parecem ser um eterno problema no Brasil...

LB – Há muita burocracia, ela é excessiva que impede que os projetos sejam entregues no prazo. O poder público precisa conhecer quanto custa fazer uma obra e oferecer projetos executivos bem feitos, para cobrar mais rigor das empresas. É necessário mais rigor na apicação dos recursos, e para isso o poder público precisa cumprir sua parte, com projetos bem feitos, preços justos e pagamento em dia. Quando não existe uma adequação, um equilíbrio entre a receita e despesa, a obra sofre.
 
JC – O que o setor da construção civil espera para 2013?

LB - Esperamos um 2013 promissor, torcemos pela aprovação do Proinveste, defendemos um programa que proporcione trabalho às pequenas e médias empresas, defendemos que as obras possam ser democratizadas. Um exemplo é a transposição do Rio São Francisco, que está com problemas. Porque 14 empresas e não 50? Deveria haver um fracionamento. As obras da copa por exemplo, as grandes empresas de repetem. No Brasil existem 100 mil empresas construtoras, pequenas e médias, que poderia ter mais espaço no mercado. Lutamos pela democratização das obras públicas, por lisura na licitação. Nesta questão Sergipe é uma referência nacional, temos um governo ético, transparente, sem ocorrências de corrupção. Volto a insistir, o preço das obras deveria ser justo, com projetos executivos de boa qualidade, licenças deferidas em prazos corretos. Também é importante que não se transfira os ônus decorrentes da burocracia para as empresas. O fato é que não podemos mais conviver com obras que atrasam. No passado elas tinham data para terminar, não era assim. Fora do Brasil as coisas andam, vejam o caso do Japão, onde após a catástrofe algumas estradas foram recuperadas em trita dias. Em Sergipe a duplicação da BR 101 no trecho de Pedra Branca levou 15 anos para a conclusão de 10 quilômetros. Isso não pode mais acontecer.

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