terça-feira, 18 de dezembro de 2012

COLUNA MAX AUGUSTO - Estacionamento pago, democracia e comunicação

Na semana passada confessei aqui neste espaço que aderi ao tal boicote aos shoppings, após o início da cobrança pelos estacionamentos. Conforme prometido, vamos dar continuidade ao debate sobre o tema, mas agora sobre um outro prisma: mostrando que a discussão nas redes sociais é uma amostra do que pode se tornar num futuro não muito distante o aperfeiçoamento do processo democrático.




O objetivo aqui são dois, basicamente: o primeiro é continuar a analisar os argumentos que estão sendo usados por quem é contra a cobrança, por quem é favorável – e por quem quer apenas tumultuar. A análise não segue em tom de martelada final, é apenas um ponto de vista deste escriba. 


O outro ponto é que, como já deixei claro, acompanho o imbróglio não apenas na qualidade de jornalista, mas de cidadão. Há muito tempo não via a estática e apática sociedade aracajuana unida, mobilizada e empolgada para debater um tema. Só isso despertou em mim uma atenção especial. Ainda que a problemática não seja das mais nobres (conforme já analisamos na coluna da semana passada) é sempre bom ver o povo unido – e poder avaliar a real força que os cidadãos organizados possuem.


Na semana passada falei que algumas pessoas são contra a cobrança, mas dizem que não vão aos shoppings – e ignorei estes comentários pedantes. Também mostrei que a propriedade privada não é algo absoluto na legislação brasileira, em alusão à turma que repete “é um empreendimento privado, ele cobra quanto quer e vai quem quiser”. A lei regula o uso da propriedade: Falei do problema urbanístico e de trânsito que pode ser gerado com a cobrança e lembrei ainda que um dos shoppings teve a área do seu estacionamento doada pelo governo.
 

Sem pobres
Vi outro argumento interessante sobre a cobrança: ela seria uma forma de afastar os ‘quebrados’ que vão ao shopping ocupar vagas para tomar sorvete de R$ 2. Argumentação simplória de quem mostra desconhecer conceitos básicos de marketing e do comércio. O shopping fatura com movimento, e movimento é venda. Ter uma loja que vende balas num local onde passam trinta mil pessoas por dia é garantia de lucro. Um lojista que entre outros produtos vende balas me confessou que só de um tipo específico delas, vende 200 por dia.

Em um dos shoppings o lucro mais garantido é de um estabelecimento que vende manjados salgadinhos, num local estratégico e muito movimentado. Sem falar que as principais lojas dos shoppings não são voltadas para a elite. Em ambos, os carros chefes são lojas de departamento que vendem a roupa utilizada por quem vai apenas comprar um sorvete e ver o movimento. Aliás, a lógica das vitrines nos shoppings é essa: despertar o desejo de consumo naqueles que passam em frente à loja mas não estavam pensando em comprar.

Queda nas vendas
Houve realmente uma queda imensa nas vendas, durante as primeiras semanas. Depois ela foi regredindo – mas o movimento não voltou ao normal até o momento. Estamos em período de compras natalinas, a administração dos shoppings sabem disso e não foi por acaso que escolheram a época. É por isso que muita gente diz ‘fui ao shopping e estava cheio’ – e realmente está, mas não da forma que estaria no período de final de ano, quando o movimento dobra.



Em conversa com um lojista o próprio proprietário dos shoppings teria advertido seus diretores que em Aracaju as coisas são diferentes e que a estratégia deles, que já previa uma queda inicial nas vendas, poderia não dar certo. Aos poucos a experiência da administração vai prevalecendo - e se continuar alguns comerciantes deverão rever seus custos ou mesmo deixar o local – é o caso da universidade onde somado o gasto com estacionamento, seus alunos terão que pagar até 35% a mais para estudar.

Democracia e comunicação
Trabalhando com comunicação é também interessante observar o fenômeno da disseminação do tema nas redes sociais. É realmente instigante ver como algo aparentemente simples começa a crescer e ganhar corpo até se tornar um ‘viral’ (no jargão dos publicitários e marqueteiros). E de repente a cobrança se tornou o principal tema das piadas, protestos e todo tipo de manifestação. 




Testemunhar, acompanhar e participar de algo assim nos faz pensar sobre o impacto que as tecnologias de comunicação, internet e redes sociais podem ter na democracia. Você, caro leitor, por acaso já parou para pensar que vivemos hoje numa democracia indireta, onde elegemos vereadores, deputados e senadores que teoricamente deveriam representar os interesses das cidades, dos estados, dos cidadãos, e que isso além de gerar um custo altíssimo para manter essa estrutura, muitas vezes traz a decepção de votos e posicionamentos de parlamentares que não representam o que pensa seu eleitorado.



E o que isso tem a ver com a cobrança nos estacionamentos? É que um debate novo começa a florescer no mundo. Estamos num Brasil que possui mais de 200 milhões de aparelhos celulares. Nada impede então que através da tecnologia seja retomado o exercício da democracia direta, tal qual na Grécia antiga, onde os cidadãos participavam de forma plena – tá certo, nem todos eram cidadãos, mas isso é uma outra história.




Tecnicamente nada impede hoje que o poder legislativo como conhecemos hoje seja extinto. E no lugar destes senadores e deputados, poderíamos votar diretamente nos temas que nos interessem. Já é possível hoje visualizar um cenário onde uma proposta de lei, ao invés de passar pelo crivo do congresso, seja avaliada pela população. A internet e suas redes sociais como blogs facebook e Twitter são o cenário perfeito para que o debate seja realizado – assim como pudemos ver nas discussões sobre a cobrança nos estacionamentos.


Após um período previamente estabelecido, o debates ocorreriam nas redes sociais, e na hora de votar, a democracia plena poderia ser exercida através do celular, e-mail, redes sociais. Não é algo tecnicamente impossível – na verdade é bem simples. Na eleição para presidente dos Estados Unidos, por exemplo, as pessoas que estavam fora do país poderiam votar através de e-mails. 



Hoje esse pode ser um sonho ainda distante – mas que já começa a ser analisado em alguns países do norte europeu.  A mobilização e o debate bobo sobre a cobrança nos estacionamentos, mesmo que sejam sepultado, serviu para mostrar a capacidade de aperfeiçoamento do processo democrático, contido em cada comentário despojado, despropositado ou altamente engajado em alguma causa.
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