segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ulysses Guimarães, 20 anos de ausência

Eunício Oliveira - Senador pelo PMDB do Ceará, Tesoureiro do PMDB.

Há quem defina o “gênio” como a pessoa que mira e atira  em um alvo que ninguém mais enxerga – e acerta! Ulysses Silveira Guimarães – o Senhor Diretas, Senhor Constituição e, claro, Senhor PMDB, cuja morte trágica e misteriosa, ao lado de dª Mora, companheira  de amor e de vida, há exatos 20 anos, nos privou, merece como ninguém o título de gênio maior da política brasileira.

Para marcar esse tempo, nada melhor do lembrar a história que ele construiu. Na esteira das eleições de 1970, realizadas sob repressão e censura, e que resultaram  em séria derrota para o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Ulysses, recém-conduzido à presidência da legenda, foi capaz de ‘ler’ no grande número de abstenções, votos nulos e brancos a janela de oportunidade que, anos depois, levaria  às grandes vitórias da oposição e o início da derrota final do regime  militar.


Dr. Ulysses, com a paciência dos autênticos sábios, ensinou que naquele ‘anti-voto’  escondiam-se a frustração e o descontentamento que cumpria à oposição transformar em força positiva de esperança e mudança. Daquela leitura brotaria, em 1973, sua ‘anticandidatura’ à Presidência da República. Na eleição indireta, por um colégio eleitoral de cartas marcadas, a  derrota era líquida e certa. Mesmo assim, o anticandidato, seguro de que navegar é preciso, percorreu todo o país de ponta, criando fatos políticos que atraíam a atenção da imprensa  e  driblavam  a vigilância dos censores.


Na Convenção Nacional emedebista, em setembro de 1973, declarou: “o paradoxo é o signo da presente sucessão presidencial”. E, logo adiante: “não é o candidato que vai percorrer o País. É o anticandidato, para denunciar a antieleição, imposta pela anticonsitituição.” Sua  estratégia de resistência democrática  floresceu e frutificou no pleito de novembro de 1974, com a oposição elegendo 15 das 21 cadeiras do senado, além de 165 entre 364 deputados federais. Um plebiscito contra a ditadura.


Nos anos seguintes, sempre reeleito para a presidência do MDB, liderou seus companheiros na  ocupação de todos os espaços e na utilização de todos os canais de comunicação com uma sociedade civil cansada do arbítrio. E foi no dia 13 de maio de 1978, em Salvador, em campanha pelos candidatos do PMDB, que o dr. Ulysses, orador eloquente e dotado de presença de espírito, produziu uma frase histórica. Diante do cerco policial, fulminou: “respeitem o presidente da oposição! [...] soldados da minha pátria: baioneta não é voto, cachorro não é urna!”


Àquela altura, passados o período mais sombrio da repressão, da tortura, da morte e dos desaparecimentos, a cúpula militar constatou o alto preço moral que a politização da caserna e a militarização da política impuseram  a uma instituição baseada na hierarquia e na disciplina. Passava o regime a falar  em liberalização, em distensão “lenta, gradual e segura”. Na verdade, isso traduzia um estratagema  de afastamento do governo sem  abandono do poder, cujo sucesso dependia  do estilhaçamento da frente oposicionista então abrigada sob o manto do MDB.


O resultado foi a reforma partidária  de 1979/80. Esse remendo casuístico, a par de fomentar o surgimento de uma oposição ‘domesticada’, obrigou as agremiações  a incorporar a palavra ‘partido’ às suas siglas, ao que o dr. Ulysses reagiu com astúcia, limitando-se a colocar um ‘p’, de povo, na frente  das familiares  ’m,d,b’.


Ulysses tinha  a  mais forte convicção de que  nem mesmo a usina militar de casuísmos era capaz de bloquear o movimento irresistível rumo da redemocratização.  Como sempre, estava certo: as eleições de 1982, marcadas pela volta da escolha  dos governadores pelo voto popular, deram mais uma vitória à oposição em vários Estados, com os peemedebistas Franco Montoro, Tancredo Neves, José Richa e Íris Resende, enquanto o trabalhista histórico Leonel Brizola, de volta do longo exílio desde 1979, com a  conquista da anistia, foi conduzido ao Palácio Guanabara pelo povo do Rio de Janeiro.


E ainda estava reservado a  esses novos governadores um  papel essencial, no fornecimento de apoio político ao próximo ato da  redemocratização: a campanha pelas eleições diretas para Presidente da República, as ‘diretas já’! A  proposta  de emenda constitucional apresentada por um jovem e aguerrido deputado federal mato-grossense, Dante Martins de Oliveira, ensejou as maiores manifestações populares de toda  a nossa história, cobrindo o Brasil de amarelo.


O amarelo das diretas transformou-se na nova cor da esperança e iluminou os  palanques onde as palavras e os gestos do dr. Ulysses assumiam  absoluto e primeiríssimo plano. No dia 16 de abril de 1984, no último megacomício, realizado no Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista, 1,5 milhão de pessoas disseram ‘presente’ ao chamado da democracia na voz inconfundível do dr. Diretas. 


Contudo,  a ditadura, mesmo desgastada, desmoralizada e deslegitimada, ainda não estava derrotada. Na sessão do Congresso do dia  25 de abril daquele ano a Emenda Dante recebeu 298 sins e 65 nãos, portanto, menos que os 325 votos necessários. A sucessão do general-presidente João Figueiredo, tal como programado nas planilhas do regime autoritário, seria mesmo conduzida no circuito fechado do Colégio Eleitoral.


A despeito da derrota, não tardaria a ficar claro que o saldo das diretas não havia sido em vão. Rapidamente, a palavra de ordem  passou a ser ‘Tancredo Já!’, e a vitória do discreto e hábil estadista mineiro na  última eleição indireta só  seria possível àquela mobilização. Nos momentos trágicos que caracterizaram  a véspera do que seria a posse do novo presidente, a  indiscutível autoridade moral de Ulysses Guimarães, àquela altura já à frente da Presidência da Câmara, foi decisiva para  orientar a solução política e constitucional do impasse, com  a  investidura do vice na chapa entre o PMDB e a Frente Liberal, o nosso companheiro José Sarney.


O longo, complexo e rico processo de reconstitucionalização do País correspondeu ao apogeu do prestígio e do carisma  do nosso velho e querido timoneiro, que então acumulava as Presidências da Assembleia Constituinte, da Câmara e do PMDB. O choque de interesses e ideologias que, longamente impedidos de se expressar durante a noite escura do arbítrio, transbordaram para  o espaço democrático do Parlamento.


Hoje, é  mais que consenso entre os analistas, historiadores e participantes daquele momento singular, que sérios e numerosos impasses então surgidos não teriam chegado a bom termo sem  o concurso da liderança  indisputável de Ulysses Guimarães.  É como se as suas  magníficas palavras, quando da promulgação da Constituição de 1988, que no próximo ano completa 25 anos, ainda ressoassem: a nova carta “certamente não é perfeita. Ela própria  o confessa  ao admitir a reforma. Mas, quanto a ela, discordar, sim; divergir, sim; descumpri-la, jamais.”


Estava, enfim, cumprida  a  maior missão que  seu destino  e, também, a  sua  virtude cívico-política  lhe haviam  reservado. Porém, o espírito inquieto daquele autodenominado “caçador de nuvens” definitivamente não fora feito para o repouso. Pouco depois, lá estava ele engajado em mais uma busca, dessa vez do que poderíamos muito bem  considerar o ‘santo graal’ da política brasileira: a Presidência da República, na eleição de 1989.


Formo entre aqueles que, até hoje, consideram que os 4,43% dos votos obtidos pelo dr. Ulysses  não fizeram juz, nem de longe, ao seu contributo precioso à nossa civilização democrática. Mas, sua  envergadura  humana, sua generosidade natural, sua paixão incondicional pelo Brasil e seu povo não permitiram que ele  se  curvasse ao desânimo. 
Ao desaparecer para sempre no mar de Angra dos Reis, ao lado da esposa e do casal Severo Gomes (seu dileto amigo, outro  honrado  e  indispensável guerreiro da democracia) naquele fatídico dia 12 de outubro de 1992 – motivo deste artigo para marcar seus 20 anos –, estava, como sempre, comprometido de corpo e alma  com a campanha pelo parlamentarismo.

A despeito da falta provocada pela sua morte, lacuna que jamais foi preenchida, restou a certeza de que ele partiu como queria, pois já havia avisado: “eu não quero morrer de raiva, nem de mágoa, nem de doença. eu quero morrer na luta”.  Cabe a todos nós, detentores de qualquer parcela de responsabilidade decisória  na  esfera pública, mas  sobretudo a nós, militantes do partido que ele fundou e, como ninguém, engrandeceu, dedicar o melhor do nosso esforço, da nossa energia, da nossa capacidade  a honrar seu exemplo, continuar sua obra.



LEIA MAIS:









Nenhum comentário:

Postar um comentário