domingo, 14 de outubro de 2012

Lucas Aribé: “Aracaju não é uma cidade com acessibilidade”

Por Max Augusto
Lucas Aribé Alves, 26 anos. Esse será a grande novidade da Câmara Municipal de Aracaju, em 2013. Eleito pelo PSB com 4.311 votos, o rapaz será o vereador mais jovem da casa, além de contar com uma peculiaridade: é deficiente visual. Jornalista, radialista, músico e professor, Lucas pode ser considerado a revelação desta última eleição, já que quase duplicou os seus 2.352 votos obtidos em 2008. Nesta conversa com o JORNAL DA CIDADE ele falou sobre como será sua atuação, que obviamente, vai focar os temas da acessibilidade. Leia a seguir.




JORNAL DA CIDADE – Qual foi a sua avaliação sobre esta campanha}
LUCAS ARIBÉ - Esta campanha teve um diferencial em relação à outra: foi a nossa bagagem política, a experiência que adquirimos. Passei a participar mais do partido, integrando os diálogos, negociações e eventos. Ocupei um cargo na Secretaria de Educação, que me permitiu atuar como professor de informática e braile. Acho que tudo isso me ajudou, me deu mais experiência e me preparou para chegar com mais força e popularidade.


JC – Você achava que desta vez iria conseguir se eleger, numa chapa considerada muito difícil?
LA – Havia a expectativa, mas fui adquirindo autoconfiança durante o processo da campanha. No começo estava preocupado, justamente pelo fato de seis candidatos com mandatos estarem na nossa chapa. No início eu estava sendo apontado como possível surpresa, e buscamos fazer uma campanha divulgando nosso trabalho e propostas.


JC – A participação do deputado federal e ex-jogador Romário foi importante na sua campanha?
LA - Sem dúvida, na linguagem do futebol eu diria que ele foi um reforço de peso, eu diria que ele foi a peça fundamental na campanha, por se tratar de um parlamentar disciplinado e exemplar, que luta pela acessibilidade. Ele é muito respeitado e querido no ambiente politico e pelo povo. Sem dúvida a participação de Romário era o que faltava para a nossa vitória. Inúmeras pessoas falavam comigo, na rua: Ele é o cara, é o candidato de Romário!


JC - A questão da acessibilidade será sua prioridade?
LA – Nossa prioridade será lutar pela acessibilidade e fazer esse trabalho inovador para Aracaju. É claro que a gente vai estar atento às outras questões, como mobilidade urbana, Plano Diretor e as discussões do dia-a-dia. A gente vai fiscalizar o prefeito, cumprindo o nosso papel e buscando sempre o diálogo, para que a gente cumpra nosso papel com perfeição.


JC – Você já possui algum projeto ou ideia especifica para a questão da acessibilidade?
LA – Durante a campanha distribuímos um panfleto com dez propostas principais sobre este tema. O que tenho em mente hoje como prioridade será criar uma legislação municipal voltada para a acessibilidade, unindo o que já existe. Esta lei ou estatuto vai nortear todas as outras propostas que a gente tem, como garantir a possibilidade de pessoas com deficiência utilizarem Lan Houses, e lhes garantir autonomia em restaurantes e bares, por exemplo. Livros digitais para os alunos da rede pública municipal e uma central de intérpretes da libras são algumas das outras propostas, além da questão das calçadas, que a gente vai continuar lutando pela padroniuzação.


JC – Hoje Aracaju é uma cidade com acessibilidade?
LA – Infelizmente ainda não é. Sabemos muito bem que a acessibilidade não é construída de um dia para o outro, é uma caminhada muito longa. Nos últimos dez anos o Brasil começou a investir na acessibilidade, principalmente no campo jurídico. Já existem muitas leis que regem a acessibilidade, mas o que está faltando é o cumprimento, a prática, este olhar no sentido de por em prática o que diz a lei. E o papel da gente vai ser fiscalizar isso.


JC – O presidente da Câmara, Emmanuel Nascimento, mudanças na estrutura da Câmara, para lhe receber.
LA – Li sobre isso na imprensa, e visitei Emmanuel, para saber o que está sendo pensado. Acho essa atitude muito louvável e tem um significado muito importante, que é a Câmara de vereadores, na pessoa do presidente, mostrando que está aberta para investir também na acessibilidade, o que nos leva a pensar que com certeza vai aprovar as nossas iniciativas ideias.


JC – Você vaio continuar desenvolvendo suas atividades de músico, professor, radialista, etc?
LA - Ainda estou me reorganizando, porque acredito que a partir de janeiro, ou antes, vou ter uma nova vida. Aliás, já estou tendo uma nova vida. Já estou me sentindo como vereador, e olhe que a ficha não caiu imediatamente, por mais que soubesse que já tinha ganhado, não tinha absolvido a informação. A música não vai parar, e as outras atividades a gente vai ter que eleger prioridades.


JC – Você teve uma educação que lhe propiciaram uma boa formação intelectual, mesmo com a deficiência física. Faltam mais oportunidades a este setor da sociedade?
LA – O ensino público precisa ser melhorado em todos os sentidos, não só na parte da Educação inclusiva. A Educação precisa ser revista. Quanto a mim, no ensino particular foi uma luta para estudar, ir para a faculdade. Houve rejeição de escola, que não aceitava deficientes em 1989. Mas quem acreditou, as escolas que apostaram nesta nova colocação, todas perceberam que não é um bicho de sete cabeças. As pessoas com deficiência estudam da mesma forma, tem notas altas ou baixas. Eu sempre gostei de estudar, ler e escrever.


JC – Politicamente como vai ser sua atuação? Estava preparado para ser um vereador de oposição?
LA – Mesmo na oposição, a minha atuação será de trabalhar para o povo. Quero contribuir para o quero contribuir para o crescimento de Aracaju, quero ajudar a apoiar iniciativas criativas, pautadas na ética, no respeito e no diálogo, esse é o meu perfil. Não sou de brigar, me exaltar, sou mais calado. Tenho posicionamentos, meu partido tem um lado, mas vamos sempre buscar o dialogo com o prefeito e vereadores, para que agente possa construir uma nova politica. O povo precisa que vereadores e prefeito trabalhem em comunhão.


JC – Porque você acha que o seu correligionário Valadares Filho não obteve sucesso nas urnas?
LA - Na política é assim mesmo, ou se ganha ou se perde. Valadares foi muito bem votado, mas enfrentou um adversário que já foi prefeito e governador. Mas o povo é quem define, e só tenho que parabenizar o prefeito e dizer que espero dele uma atuação decente, que ele cumpra realmente o que prometeu, assim com também vou tentar fazer.


JC – Preparado para as novas responsabilidades?
LA - Sem dúvida é uma grande responsabilidade. Esse segmento que represento é um grupo forte, importante. As pessoas com deficiência precisavam ter um representante ocupando o parlamento. Temos outros parlamentares no Brasil, que está começando a respirar acessibilidade. Sei muito bem que não vou ser o vereador dos deficientes, vou trabalhar para outros segmentos, inclusive pelos radialistas e por outros companheiros de profissão. Vamos buscar projetos para os radialistas, buscando melhorar suas condições de trabalho. Agora vou trabalhar para todos.


JC – Você acha que foi votado pelos deficientes?
LA - Passamos por todas as entidades, mostramos as nossas propostas ,discutimos com alguns deficientes também, tivemos um trabalho coletivo e uma proposta interessante que quero por em prática. Queremos mostrar a união do nosso mandato com as pessoas com deficiência e para isso vamos criar o Fórum permanente de acessibilidade. No mais, quero apenas agradecer a confiança de todos esses eleitores e quero deixar uma frase de nossa autoria, que resume tudo que a gente pretende fazer durante os quatro anos: “Tratar diferente os diferentes é oportunizar com igualdade”.



LEIA MAIS:









Nenhum comentário:

Postar um comentário