terça-feira, 14 de agosto de 2012

COLUNA MAX AUGUSTO - O sergipano Jorge Amado

Como esta coluna aborda predominantemente temas da política, vamos direto às críticas, para que depois possamos esmiuçar os argumentos que as sustentam: O escritor baiano de descendência sergipana Jorge Amado possui uma estreita ligação com Sergipe. Estreitíssima. Mas enquanto se comemora o seu centenário e o mundo se curva à sua criatividade e verve literária, o pequeno estado de Sergipe o renega – perdendo assim grandes oportunidades.

Infelizmente as terras de Sergipe Del Rey são pródigas em renegar o talento e a história que lhe pertence, numa atitude diametralmente oposta ao bairrismo baiano que supervaloriza todos os seus produtos culturais – tendo como resultado a fama internacional e o aumento contínuo no fluxo de turistas, entre outras benesse. Enquanto a obra de Jorge e tudo o mais que possui ligação a ele transborda pelas telas de televisões, revistas e sites do mundo inteiro, por aqui os órgãos oficiais de Cultura e Turismo solenemente ignoram a importância do estado e de determinados municípios para o romancista e sua obra., ao contrário do que acontece na Bahia.

Pelo mundo
A ligação de Sergipe com Jorge Amado é um fato com potencial turístico enorme. Algumas das paisagens descritas em suas histórias imortais estão do lado de cá do rio Real e poderiam ser exploradas com competência pelos órgãos de Turismo e Cultura. São vários os exemplos pelo mundo, onde os locais frequentados por grandes escritores viram pontos turísticos.

Em Santiago do Chile “La Chascona”, uma bucólica casa construída por Pablo Neruda, em forma de navio e próximo ao Cerro San Cristóbal (outro ponto turístico movimentadíssimo) é parada quase que obrigatória e recebe milhares de visitantes por ano. Em Paris, muitos fazem questão de ir conhecer o “Hemingway Ritz”, bar chique instalado num dos hotéis mais tradicionais da capital francesa, local onde Hernest Hemingway costumava tomar seus pileques – em um dia inspirado chegou a beber 57 martinis, contam os garçons aos frequentadores. Na Irlanda, a casa onde nasceu e residiu muito tempo James Joyce, autor do quilométrico e para alguns indecifrável Ulysses atrai adoradores do mundo todo.

Os exemplos poderiam se estender por muitas linhas, mas basta, para dizer que Sergipe poderia ter um, ou vários, roteiros turísticos com foco na literatura de Jorge Amado. Esta é só uma das possibilidades. A casa onde ele morou, os lugares que frequentava em Estância, os arredores da fazenda do seu pai, em Itaporanga D’ajuda, tudo isso geraria um maravilhoso e culturalmente rico roteiro turístico – que poderia ser também encampado pelas secretarias de Cultura e Educação para ensinar um pouco de literatura e história aos jovens sergipanos.

Jorge e Sergipe
Infelizmente é grande a quantidade de sergipanos que desconhece a relação íntima e profícua entre seu estado e um dos mestres da literatura brasileira. As cidades de Estância e Itaporanga possuem papéis importantes na biografia e produção literária do escritor nascido em Itabuna (BA), mas filho do sergipano João Amado de Faria, natural de Itaporanga d’Ajuda, que foi plantar cacau na Bahia – refazendo a rota de vários sergipanos que ajudaram a povoar a região sul do nosso estado vizinho.

Aos onze anos seu pai o mandou a Salvador, onde foi estudar no internato Antônio Vieira. Cerca de um ano depois ele fugiu do colégio e passou dois meses percorrendo o sertão baiano, num período considerado por muitos como fundamental para a criação de alguns dos seus personagens.

A jornada do pequeno Jorge terminou em Itaporanga d’Ajuda (SE), onde morava seu avô paterno, José Amado. Coube ao seu tio Álvaro (outra pessoa importante para Jorge, neste período) ir buscá-lo e levá-lo de volta à capital baiana.

Estância
Em 1933 Jorge Amado estabeleceria outro laço com Sergipe: casava-se com Matilde Garcia Rosa, na cidade de Estância. O casal teve uma filha, Eulália Dalila Amado, nascida em 1935 e falecida subitamente com apenas catorze anos. Juntamente com sua então esposa Jorge escreveu o livro infantil “Descoberta do mundo”.

Provavelmente quem melhor descreveu esse período foi o escritor estanciano Rui Lima do Nascimento, que no livro “Jorge Amado: uma cortina que se abre” (trabalho que segundo o autor conta com a “benção” e pequena colaboração do próprio Jorge) narra o cotidiano do escritor que havia chegado a Sergipe para fugir da perseguição imposta pelo regime de Getúlio Vargas. Naquele período, década de 30, ele era um garoto, quando conheceu o baiano-sergipano.

Após o golpe de Vargas, Jorge foi preso em Manaus, em 1937, quando retornava de longa viagem internacional. Seus livros foram considerados subversivos. No ano seguinte ele foi libertado, e após passagens rápidas pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia, foi residir em Estância. Lá ele escreveu o livro de poemas “A estrada do mar”, retomando um dos temas recorrentes em sua obra, o mar.

Em artigo publicado em 2004 o historiador e intelectual Luiz Antônio Barreto lembra que em terras sergipanas Jorge Amado fez amizades e começou a gestar ou lapidar personagens para vários de seus livros, como “Tieta do Agreste”, “Gabriela” e “Tereza Batista cansada de guerra”. Alguns personagens antológicos tiveram como base amigos ou pessoas que conheceu em Estância. Foi lá também que ele começou a escrever “Capitães de Areia”.

O povo sergipano precisa conhecer esses fatos e muitos outros, e o poder público tem a obrigação de trabalhar para isso. Em Estância a Prefeitura realizou ações pontuais durante o centenário, mas o governo do Estado se ausentou por completo da data. Não foi realizado um seminário, um prêmio de monografias sobre o tema, exposições, saraus, enfim, nada nada. Uma pena para esse gênio que adotou o estado onde não apenas nasceu, mas onde se viu valorizado e reconhecido.


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