sexta-feira, 27 de julho de 2012

Flávia Brasileiro: “A rede de Saúde privada em Sergipe é tão problemática quanto a pública”


Por Max Augusto

Nesta entrevista ao BLOG DO MAX a presidente do Sindicato dos Enfermeiros de Aracaju, Flávia Brasileiro, faz duras críticas à situação da Saúde. Apesar de afirmar que não se pode ignorar o aparelhamento estrutural das Unidades de Saúde em todo o Estado, ela diz que a parte física sozinha não resolve e que os servidores não estão sendo bem tratados. Segundo ela existem até mesmo denúncias de perseguição no serviço público. Para Flávia o maior problema na Saúde em Sergipe hoje é a falta de eficácia da atenção básica, principalmente nos interiores. A sidicalista, que este ano disputa uma vaga na Câmara de Vereadores de Aracaju, pelo PRTB, ainda reclama dos baixos salários da categoria e diz que hoje os enfermeiros não trabalham mais com orgulho e paixão – e que os profissionais mais capacitados estão deixando o Estado. Leia a entrevista exclusiva. 

Sindicalista é candidata e diz que possui boas propostas
BLOG DO MAX - Qual é a situação da Saúde em Sergipe hoje?
Flávia Brasileiro - A Saúde em Sergipe não difere do restante do país... O SUS está subfinanciado, mal gerido e superlotado, mas isso não quer dizer que só o serviço público sofra. A rede privada de Sergipe é tão problemática quanto a pública, basta você passar um turno em uma recepção de qualquer hospital privado ou ficar internado e você consegue identificar os gargalos. Os planos de saúde fogem de sua obrigação contratual, o usuário vai para o serviço público e não há ressarcimento do que foi gasto.
Particularmente temos uma falta de leitos em Sergipe, isso é notório, mas falta também falta de eficácia da atenção básica, principalmente nos interiores. Enquanto gestor fingir que oferece saúde, enquanto o usuário não tiver um meio de denunciar e enquanto os profissionais não assumirem seus papéis, estaremos brincando de "fazer saúde".

BLOG DO MAX - Como os enfermeiros e profissionais da Saúde avaliam o quadro atual? O que você escuta dos profissionais, o que está faltando para melhorar a prestação dos serviços?
FB - Hoje os enfermeiros estão desacreditados nas mudanças, revoltados pela grande desvalorização de seu trabalho e neste momento, vivemos uma crise de desânimo em todo o estado. O investimento para se tornar enfermeiro é grande, não só a questão financeira propriamente dita, mas o tempo, a capacitação, investimento de vida mesmo e não se tem retorno nem remuneratório e nem profissional. O que faz boa parte dos enfermeiros trabalhar por compromisso e responsabilidade, mas não mais por orgulho e paixão. Aqueles que investem em um bom curriculo estão saindo de Sergipe ou desistindo da Enfermagem por outra profissão. Falta investimento para dar condições de trabalho, proporcionar valorização profissional (de suas atividades) e claro, de remuneração.

BLOG DO MAX - Falta um pouco de dedicação dos profissionais de Saúde, tendo em vista as denuncias de horários não cumpridos ou falta de delicadeza ao atender pacientes?
FB - Temos sim problemas com alguns profissionais, mas como em qualquer outra profissão. O grande detalhe é que às vezes não se percebe, mas estas pessoas que estão faltando com delicadeza, que não estão cumprindo suas obrigações muitas vezes estão doentes e ninguém observa, pois o cuidador não está sendo cuidado. A sobrecarga de trabalho está trazendo muitos impactos negativos na vida destes trabalhadores que vivem sob constante estresse e por isso lutamos há 50 anos pela regulamentação da jornada de 30h para a Enfermagem.

BLOG DO MAX - Os médicos estão cumprindo sua carga horária e escalas de trabalho, na Prefeitura e no Estado?
FB - Esta é uma pergunta que vai ficar sem a minha resposta. É muito delicado falarmos de uma outra categoria que trabalha ao nosso lado. Não podemos também generalizar que todo mundo seja cumpridor ou descumpridor de seus deveres, muitos médicos ainda são abnegados. O que posso dizer é que a Enfermagem geralmente cumpre horário.

BLOG DO MAX - A chegada de Sílvio Santos à Secretaria de Saúde mudou algo? O diálogo com a categoria está melhor?
FB - Sílvio veio credibilizado por sua postura na Prefeitura de Aracaju, nos ouviu, nos ajudou nas mediações da Mesa de Negociação, nos respeitou enquanto categoria, mas no Estado ainda não deu tempo de avaliarmos. Uma coisa foi negativa com a saída de Antônio Carlos: Tudo o que já tínhamos discutido se perdeu, e Sílvio nos fez uma proposta inaceitável que retroage ao que foi superado nas negociações de 2010. Temos sempre que nos lembrar que a administração pública é impessoal, portanto, tratando com o Governo isso é o tipo de situação que não deveria acontecer, mas sempre que se muda quem está na "cadeira", voltamos à estaca zero!

BLOG DO MAX - Como presidente de um sindicato você fez diversas críticas ao governo estadual e municipal, e agora sai candidata por um partido que faz oposição a esses governos. Sua atuação tinha intenções políticas? Não teme que fique essa conotação no subconsciente das pessoas?
FB - Não tenho medo, pois na verdade meu trabalho à frente do Sindicato dos Enfermeiros está solidificado. As pessoas sabem quem é Flávia Brasileiro. Eu não tinha pretensões políticas quando entrei no sindicato, as discussões políticas partidárias foram aparecendo de acordo com as necessidades. Foi um rumo natural das coisas. Fui presidente do sindicato de 2005 a 2012, o reconhecimento deste trabalho me levou a ser eleita para a vice-presidência da Federação Nacional dos Enfermeiros, coisa que para a Enfermagem Sergipana foi muito importante e isso se deu com trabalho. Já enfrentei pesadamente a gestão de João Alves em 2003-2004, mas nada se comparou a gestão do PT. O mandato do PT em Aracaju foi traumatizante, mas no Estado conseguiu ser pior, principalmente com a saúde para a população e com os trabalhadores. E eu não falo de trato de pessoas (sempre fui muito bem tratada como pessoa pela grande maioria dos gestores), eu falo do trato em relação às ações de governo, às estratégias, às políticas de gestão. A aliança do meu partido com João é coisa recente, assim como há pouco tempo os Amorins eram aliados de Déda. Muita coisa muda.  Embora goste de trabalhar com meu grupo, gostaria na verdade que a política brasileira permitisse a candidatura individual, mas não é possível. Aí seríamos independentes ideologicamente.

BLOG DO MAX - Como vereadora, qual será a sua plataforma de trabalho? A Saúde será o foco? E o que você acha que poderá fazer pela Saúde?
FB - Não me limito a discutir saúde, porque exerço efetivamente minha cidadania. Me formei em Direito para aprender a exercer meu papel de cidadã consciente. Tenho sede de justiça! Mas realmente tenho mais domínio de minha área, a saúde! Tenho projetos de resgate à cultura das brincadeiras infantis, de bibliotecas de bairro, projeto de capacitação profissional por bairro (com grande foco no combate às drogas). Tenho projeto sobre o uso da bicicleta como meio de transporte alternativo, não poluente e agente contra a obesidade, tenho projeto para melhoria do atendimento nas unidades de saúde, projeto de regulamentação da atividade do educador físico nas academias, projeto de auxílio ao tratamento do renal crônico, projeto de desestimulação fiscal ao agressor de grupos vulneráveis, projeto de regulamentação dos educadores físicos e assistentes sociais nas Equipes de saúde da Família. Pretendo dar seguimento aos projetos existentes de regulamentação da jornada de 30 horas para a Enfermagem, tenho projeto de integração da polícia comunitária, enfim... tenho várias frentes que são desconhecidas pelo simples fato de que minha luta sindical é mais específica, mas jamais serei limitada a isso!

BLOG DO MAX - A Saúde em Sergipe vem sendo alvo de denúncias e até reportagens em rede nacional. Ela está pior do que nos governos passados? Porquê?
FB - Primeiro ponto: não podemos ignorar o aparelhamento estrutural das Unidades de saúde que houve no Estado, mas a parte física somente não resolve! Foi uma manobra eleitoreira utilizada de forma descarada. Essas unidades não surtiram impacto no atendimento dos interiores e do HUSE. Segundo ponto: O governo também criou muitas expectativas  de desafogamento dos principais serviços de saúde de nosso estado, o que até agora não aconteceu. Terceiro ponto: O servidor público foi enganado durante o período de implantação da Fundação. Criaram até a expectativa de que o trabalhador da FHS iria abrir mão de outro emprego para ter dedicação exclusiva. Quarto ponto: O trato, o respeito ao trabalhador... Nunca tivemos tantas denúncias de humilhações, perseguição, assédio moral! Tivemos muitas e muitas reuniões com gestores, às vezes até para pedir a eles respeito e educação. Isso é o caos! Como você trabalha satisfeito? O quinto ponto: desabastecimento. Falta tudo! Do necessário ao essencial! Hoje estamos fazendo curativos apenas com soro, cobrindo com atadura e com as mãos diretamente. Isso é retrocesso à Era Medieval! É vexatório para o profissional ter que fazer, sabendo que não deveria ser assim!




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